An interrupted walk, a body that crosses the photograph. This monumental, central body seems to refuse the camera or… What does this image say? What can a portrait?
There is something virtuous about this photograph, capable of capturing and returning our attention at the same time. I often thought about how to dialogue with this composition, trying to understand the modes of its construction. There were some clues to take a chance on: a stepped step in the middle of the walk; a diffuse and warm light that invades the deserted space and touches the body, accentuating the lilac of the suit, the opaque gold of short and thin hair, forming a dense penumbra on the wall. But it seemed insufficient to look at the image only by its formal slits.
I then thought of the historical importance of the portrait, although this photograph destabilizes my convictions about this imposing genre of representation. The hidden face of the portrait is not always an honor at first sight. Still, a portrait can also be an exercise in presence, of itself and of its author.
Therefore, I understood that it would be better to go back to the beginning, to think about the author within the construction of the image and ask myself: why would anyone let themselves be photographed on their backs? What does this place and its architecture try to impress on my perception of this character? So I decided to try an interview — or something that is worth it — to put into play some hypotheses for this writing. Luana agreed, and that profoundly changed my understanding of the essay.



Luana Fischer iniciou sua trajetória como fotógrafa na década de 1990, trabalhando como fotojornalista no Grupo Folha. Passou pela Folha da Manhã, pela Folha da Tarde, posteriormente incorporada à Folha de São Paulo, e pelo conhecido Notícias Populares. Este último, o mesmo citado em Homem na Estrada (1993), do grupo Racionais MC ‘s, permitiu que Fischer vivenciasse de maneira intensa as dinâmicas sociais e as barreiras da cidade.
Near the Folha de São Paulo building, on Rua Ana Cintra, its daily path was crossed by the occupation of the MTST — Movement of Homeless Workers — a decisive experience for its formation. Through coexistence, Fischer realized the strength of female leaders and the way in which the families constituted there affirmed their affective and community bonds.



Desde cedo, uma pergunta atravessa sua prática:
“Por que e para que eu tiro fotos?”
De início, ainda no jornalismo, predominava a ideia de devolução pela visibilidade pública da imagem. Com o passar do tempo, essa certeza se dissolveu, e a fotografia passou a operar também como instrumento de reconstrução de identidades.
Fischer retornava seguidamente à ocupação da Rua Ana Cintra, na capital paulista, presenteando os retratados com fotos impressas, gesto que reforçava a natureza relacional e dependente do encontro em sua prática. Posteriormente, expandiu sua atuação para a fotografia comercial e de moda, conciliando exigências técnicas com suas inquietações sobre representação e presença.
Em 2024, na residência Collegium em Arévalo, Espanha, Fischer aprofundou seu interesse pelo retrato de mulheres com mais de 60 anos, observadas em bingos locais. Sua pesquisa, tanto na residência quanto em seu doutorado, foca na representação de grupos historicamente marginalizados, como mulheres e pessoas com diversidade mental. Foi em Ávila que encontrou dados e bibliografia confirmando as mulheres do bingo entre as menos representadas em sua própria região.

Em seu doutorado, explora as relações entre retrato, documentação e ética, baseando-se em autores como Allan Sekula, Georges Didi-Huberman e John Tagg. Fischer discute a dicotomia entre o retrato honorífico e o retrato repressivo proposta por Sekula. Enquanto determinados sujeitos foram fotografados para celebração e permanência, outros foram enquadrados para vigilância, classificação e controle: pacientes psiquiátricos, pessoas racializadas, pessoas com deficiência, trabalhadores pobres, indivíduos criminalizados, entre outros. Em muitos desses casos, os retratados não possuíam qualquer agência sobre suas próprias imagens.
The place, word and trail
A escolha do local da residência não é acidental: trata-se de um antigo colégio jesuíta do século XVI, erguido para a formação masculina e marcado por séculos de exclusão feminina. Mais do que cenário, o espaço atua como elemento ativo na imagem e na relação com a personagem. Nas fotografias de Fischer, essa arquitetura é fundamental na construção dos vínculos e na reconstituição simbólica dos sujeitos retratados.
Fischer discute o título do ensaio, huella (pegadas), articulando rastros espaciais com a semiótica da fotografia como índice e vestígio luminoso. Contudo, resiste à leitura mecânica da imagem, insistindo na experiência compartilhada. Essa perspectiva remete às reflexões de Jeanne Marie Gagnebin em “Lembrar escrever esquecer”: o rastro mantém a “presença do ausente e a ausência da presença”, sendo menos uma permanência plena do que o resto de uma passagem, sempre ameaçado pelo desaparecimento.



A história do retrato sempre esteve ligada à ideia de permanência e fixidez. Retratar alguém significava inscrevê-lo no tempo, produzir memória e conferir presença pública. Mas a fotografia herdou também as violências desse sistema, como identifica Allan Sekula na dicotomia entre retrato honorífico e repressivo. em “O corpo e o arquivo”, existe uma divisão histórica entre o retrato honorífico e o retrato repressivo. Frente a isso, o ensaio de Fischer opera como um gesto de resistência, uma vez que suas imagens não buscam a captura integral do outro, mas interessam-se pelo que escapa.
Portanto, a dúvida “Por que alguém se deixaria fotografar de costas?” revela a agência de Concha, a pessoa retratada. Sua monumentalidade não nasce da imposição da câmera, mas de uma escolha de permanência parcialmente acessível, em diálogo. Concha escolhe parar diante da luz secular da antiga escola e Fischer, por sua vez, sustenta esse gesto com seu olhar experimentado.
Talvez seja justamente aí que a fotografia cumpra seu intento vital: celebrar a memória de Concha e a lealdade de Fischer em criar rastros indeléveis.
Sobre a fotógrafa:
Luana Fischer é fotógrafa e artista visual, nascida no Brasil e residente em Madrid há mais de 20 anos. Seus projetos fotográficos se articulam principalmente em torno dos ciclos da natureza, da paisagem e do corpo feminino.
Sobre a autora:
Horrana de Kássia Santoz é curadora junto à Diretoria Artística do Instituto Moreira Salles (IMS) e educadora formada em Artes Visuais (UFES). É especialista em Gestão Cultural (CPF Sesc SP) e possui MBA em Gestão de Museus e Inovação (Expomus).

