Rodrigo Zeferino

31 de August de 2026
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A fotografia, em sua essência, é um ato de tempo: congela o instante, eterniza a memória. Na série Galangos, o artista visual Rodrigo Zeferino transcende essa função documental para operar uma alquimia estética, transformando a história de resistência e fé em painéis de uma grandiosidade épica. O projeto não é apenas um registro do centenário do Congado do Ipaneminha Clube Dançante Nossa Senhora do Rosário; é uma declaração de que a cultura ancestral é a verdadeira coroa que adorna a paisagem do Vale do Aço mineiro.

A trajetória de Zeferino é marcada por uma lente crítica e incisiva sobre o território. Em trabalhos anteriores, como “O Grande Vizinho” e “Veia Aberta”, ambos multipremiados, o artista utilizou a fotografia para desestabilizar a percepção comum da paisagem industrial, expondo cicatrizes da mineração e a crítica às iniciativas que transformam os espaços naturais. Sua obra se consolidou como um olhar que confronta a narrativa oficial do progresso, buscando fissuras e conflitos na cidade.

In Galangos, essa crítica se sofistica e se desloca. Ao invés de focar na força bruta do minério e do aço, Zeferino volta-se para a força espiritual e a persistência cultural. O Congado do Ipaneminha, fundado em 1925, é um bastião de memória que resistiu à expansão industrial que deu sentido à região. Ao documentar este grupo, o artista não apenas evita seu esquecimento, mas o eleva a um patamar de poder visual que rivaliza com a monumentalidade da indústria.

A escolha por uma abordagem de alta produção – com cenários, figurinos e direção de arte meticulosos – é, em si, um ato político. É a recusa do mero registro etnográfico em favor de uma estética da dignidade. Os congadeiros, retratados em grandes formatos, não são objetos de estudo, mas sim sujeitos reais e maravilhosos, cuja presença desafia a imposição de um modus vivendi predominantemente urbano e cosmopolita.

O alicerce conceitual da série é o “Real Maravilhoso” (lo real maravilloso), conceito cunhado pelo escritor cubano Alejo Carpentier e que se tornou a espinha dorsal da literatura latino-americana nos anos 1960. Zeferino o transporta para a fotografia, entendendo que a realidade do Congado – a lenda de Galanga (Chico Rei), a travessia atlântica, a devoção a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e a manutenção da tradição por mais de três séculos – já é, em sua essência, um fato extraordinário.

O artista não precisa criar o fantástico; ele o revela na “realidade desaforada” da existência (nas palavras de Gabriel García Márquez). A magia não está na invenção, mas na resistência que permite que a coroa do Rei do Congo continue a ser celebrada em um bairro rural de Ipatinga, quase 300 anos após a chegada de Francisco.

In Galangos, o que é “peculiar” é a luz, o cenário, a pose. O que é “real” é a fé, a história e a comunidade. A fotografia de Zeferino atua como um espelho que reflete a potência do mito na carne do presente.

Galangos é a prova de que a arte, quando embasada na história e na crítica, tem o poder de reescrever a paisagem, trocando o cinza do minério pelo ouro da coroa. É a celebração de um centenário que, em vez de ser apenas memória, se torna um monumento vivo à resistência cultural.

Sobre a fotógrafo:
Rodrigo Zeferino trabalha com fotografia e vídeo. Se dedica a temas contemporâneos, como trabalho fabril e meio ambiente. Possui obras em importantes coleções de arte e museus, como o MASP, o MAM-RJ e o Museu da Fotografia em Fortaleza

Sobre a autora:
Mariana Penna é jornalista especializada em cultura e arte.

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Izabella Demavlys