Publicados em seu fotolivro intitulado Aurora, momento do dia em que a luz vence a escuridão, os retratos de Yago Moreira representam a vida como ela deveria ser: vivida a cada nova alvorada. O artista captura corpos e seus fragmentos que pulsam em um desejo de liberdade e ruptura com o que está estabelecido. Suas fotografias bailam sem que percebam limites. Reside nelas uma coreografia de um corpo insubmisso, rebelde, desobediente. Há uma relação de confiança entre as personagens fotografadas e o artista fotógrafo, marcada por essa coreografia sem destino, sem borda, que se entrega e se joga de olhos fechados, conforme se observa nos registros.

Apesar de feitas em estúdio, o artista o neutraliza pelo apreço e dedicação às técnicas de impressão. É a partir delas que o jogo de luz e sombra da Aurora torna-se difuso, quase como se ele tivesse realizado as fotografias sob a luz natural de uma janela. Impressas com técnicas históricas, manuais e delicadas do fazer fotográfico, como a cianotipia e a goma bicromatada, prevalecem os tons de azul, rosa, preto, branco e cinza, que dão às fotografias essa característica borrosa e infinita do espaço-tempo da imagem, que se alarga e se estende para além do que fora apreendido, como se os movimentos continuassem em ritmo constante e vida própria.
Realizadas entre 2018 e 2024, em sua maioria com artistas da dança, as fotografias de Moreira demonstram sua consistência e rigor em trabalhar, em um primeiro plano, com a materialidade do corpo — esse que está sob um regime de disciplina e adestramento — e que aqui ganha formas e contornos poéticos ao ser enquadrado em uma estética experimental ou pouco convencional.


Gostaria de propor às leitoras que criem suas narrativas e diálogos entre as fotografias aqui expostas, mas, antes, apontar alguns caminhos parciais. A primeira e a segunda fotos têm formato horizontal e cada uma tem um movimento contrário à outra, como se as personagens dançassem de frente uma para a outra. Depois, temos um tríptico que acompanha o desenvolvimento de um certo movimento. Na sequência, duas fotografias verticais com os corpos em movimentos para lados opostos, com posições corporais semelhantes: uma muito bem definida e a outra quase um fantasma. Seria a fotografia a documentação da vida ao lançar luz onde até então só existiam trevas?



Sobre o fotógrafo:
Yago Moreira é fotógrafo e artista visual, membro do grupo de fotógrafos independentes Bulb f/22. Seu trabalho se divide entre retratos em estúdio, fotografia de rua e processos históricos, como Cianotipia e Goma Bicromatada.
Sobre a autora:
Uma Reis Sorrequia tem experiência nos estudos e ensino de gênero, diferença, desvio e sexualidade; corpo, território, ecofeminismo e decolonialidade; e educação, direitos humanos e travestilidades. É licenciada em Geografia (UFSCar) e especialista em Gestão de Diversidade e Inclusão nas Organizações (IEC/PUC Minas).





