A série Entre Sombras, Encontro Luz, de Rodrigo Pivas, reúne imagens produzidas entre 2021 e 2022 em feiras livres da capital paulista. A obra apresenta uma narrativa que conduz o olhar por um cenário marcado pela diversidade, no qual sons, cores e movimentos rompem o fluxo habitual da cidade.
Nesse percurso, mais do que registrar o ambiente, luz e sombra deixam de ser apenas recursos técnicos ou estéticos para orientar a percepção de cada cena. A fotografia direciona a atenção para objetos e situações que, no cotidiano desses espaços, costumam passar despercebidos.
Em séries fotográficas, as imagens tradicionalmente se conectam por elementos como enquadramento, forma ou tema. No trabalho de Pivas, essa articulação ganha uma camada adicional ao deslocar o olhar em direção ao abstrato.
No conjunto, há fotografias que se aproximam da abstração ao dificultar o reconhecimento imediato da cena. Em uma delas, superfícies metálicas refletem o toldo da feira e fragmentam a imagem em planos de cor e luz, tornando os objetos quase irreconhecíveis. Apenas em um segundo olhar percebe-se que são as facas que compõem o quadro. Em outra fotografia, o excesso opera de forma inversa: uma figura religiosa estampada em uma camiseta se sobrepõe a padrões vibrantes e objetos transportados, criando uma justaposição que desafia a leitura.










Embora o uso do claro-escuro, técnica originária do Renascimento, seja recorrente na fotografia e no cinema para criar volume e dramaticidade, aqui ele assume uma nova função: cria recortes, sugere formas e transforma a própria sombra em uma moldura interna à imagem. Isso é evidente nos registros de toldos e caixas empilhadas, onde rostos desconhecidos ganham destaque.
Ao se afastar da captura direta, Pivas desafia os limites da fotografia de rua ao recusar a imagem imediata e facilmente legível. Sua série aposta na ambiguidade e, embora por vezes privilegie a forma em detrimento do referente, o trabalho amplia sua dimensão sensorial. Constrói-se uma atmosfera marcada pela sobreposição de tecidos, jogos de cores, silhuetas e texturas que transportam o espectador para dentro do cenário.
Por fim, a recorrência de estruturas simétricas intensifica o impacto visual. É nessa economia de gestos e na precisão dos registros que a série encontra sua força, afirmando-se como um trabalho sensível sobre percepção, devaneio e revelação.


Sobre o fotógrafo:
Rodrigos Pivas é fotógrafo paulistano, com formação em Fotografia e Vídeo pelo Senac-SP. Sua pesquisa autoral articula a relação entre indivíduo, espaço urbano e cultura popular.
Sobre a autora:
Jane Gomes é jornalista e profissional de comunicação. Dedica-se aos estudos em História da Arte e desenvolve trabalhos em fotografia e curadoria.

