Rafa Rojas

Cores de São Paulo
12 de julho de 2026
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A fotografia de rua não tem regras. Quem disser que tem, provavelmente quer fazer você crer que conserva um saber oculto e desenvolveu uma técnica específica que só ele ou ela (em geral, ele) é capaz de transmitir. 

Tudo de que você precisa para fazer fotografia de rua é da capacidade de se deslocar de alguma forma, de sentidos vivos e de uma sensibilidade não embrutecida, não emparedada pelos horrores do dia a dia. Se colocar a câmera para passear com certa frequência, mantendo o espírito aberto e receptivo – mas alerta, porque as cidades brasileiras não dão mole e não toleram vacilão – aos objetos e às pessoas, às formas e às cores, eventualmente, imagens interessantes brotarão. 

A intuição, a meu ver, também exerce um papel importante, mas ela precisa ser, primeiro, construída e, depois, estimulada. Para que seja construída, é fundamental toda uma prática persistente, um exercício quase obsessivo, uma espécie de prece litúrgica às ruas. Depois, é preciso certo “alongamento” da intuição, para evitar que nervos e músculos específicos do corpo associados a ela enrijeçam e travem, especialmente em razão das chamadas “atividades destruidoras da alma”, como o escritor italiano Primo Levi se referia à labuta bruta, ao ganha-pão, em oposição à prática da literatura. 

Com o exercício diário da fotografia por meio das saídas sem objetivo, das caminhadas sem propósito, da afirmação – por que não? – do diletantismo, esses nervos amolecem e os músculos se flexibilizam. Aos poucos, vamos nos tornando mais expostos a cenas que antes pareciam irrelevantes e banais, a fragmentos de vida que antes pareciam insossos. Eventualmente, cenas e fragmentos saltam aos olhos e brilham, nos deixando tontos e felizes – tontos de tão felizes. Mas esse sentimento passa rápido…

No entanto, repetimos e insistimos, como adictos. E é a partir dessa insistência que se desenvolvem estilos. Não há regras, repito, para uma abordagem correta, eficiente, interessante ou bela que conduza a um estilo. Este resulta desse trabalho “inútil”, das elaborações e das reflexões, de uma “ginástica” dos sentidos e da sensibilidade. Há estilos em que fica evidente uma paixão; há outros em que se nota algum rebuscamento; há aqueles ainda em que se apresenta até mesmo certa imperfeição racionalizada. Alguns fotógrafos utilizam o torto e o tosco como ferramenta de composição, outros conseguem ser surpreendentes em qualquer circunstância, outros ainda são excessivamente sistemáticos, levam isso para a imagem e, com o mínimo, fazem o máximo. 

O fotógrafo Rafa Rojas entra nessa última categoria. Com o mínimo de elementos, seu trabalho atinge um máximo de eficiência visual. E todos os elementos que compõem suas imagens parecem ter sido feitos para aqueles lugares, como se fosse óbvio, como se houvesse uma única forma de ver aquela cena, como se aqueles objetos e aquelas pessoas existissem em equilíbrio entre si sob a ação de forças inquebrantáveis. 

E quando tudo parece apontar para uma preexistência do enquadramento, para algo em potência que só aguardava o gesto do fotógrafo para existir em ato, ou mesmo para uma espécie de déjà-vu, as cores irrompem e extravasam, mostrando que o minimalismo de Rojas não é desapaixonado.

Sobre o fotógrafo:
Rafa Rojas é fotógrafo, curador e editor. É cofundador da revista Imagem Vertigem e atua em projetos editoriais independentes. Em 2025 colaborou na criação da exposição e fotozine BECO e atuou como jurado da Convocatória Mata Atlântica, promovida pelo MIS-SP.

Sobre o autor:
TW Jonas se dedica à fotografia de rua e ao Selo Vertigem, editora que criou no final de 2021 e pela qual tem lançado fotolivros, zines e revistas de fotografia. É coautor do livro A descoberta do segundo sexo (2018) e autor do livro Science is sexy (2019), ambos lançados pelo selo Gosto Duvidoso.

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