Desde 26 de janeiro de 2018, quando conheci Alyssa, venho tentando fotografar aquilo que escapa à própria fotografia: o tempo que se transforma em presença. Este ensaio nasce de um encontro e persiste como um gesto contínuo, quase obsessivo, de acompanhar a vida enquanto ela acontece. Fotografar não foi registrar um início, mas aceitar que todo começo é apenas mais um capítulo de algo que já existia em potência.
Nestes oito anos, Alyssa tornou-se o eixo de um projeto que está menos interessado em produzir retratos e mais comprometido em revelar o processo de construir um universo compartilhado. São mais de vinte mil fotografias, cruzando quase vinte países, atravessando interiores do Brasil e imaginários estrangeiros. O território dessas imagens não é geográfico, é íntimo. Cada cidade funciona como fundo, cada esquina como dobra, mas o centro é sempre o mesmo corpo: o dela.



Há algo de paradoxal em fotografar quem se ama. A câmera aproxima e distancia, cria memória e inventa narrativa. Alyssa é minha companheira nas horas boas e nas difíceis, nas noites mal dormidas e nas madrugadas em que o futuro insiste em ser conversa. Essa convivência prolongada produz outro tipo de verdade: não a verdade documental, tão cara à fotografia, mas a verdade da convivência, o acúmulo de gestos, silêncios, rituais banais, e também os imprevistos que tensionam qualquer relação.
Quando sonhamos em estar em Tóquio, era apenas ideia. Hoje vivemos exatamente aquilo que projetamos, e essa realização transforma o sentido da própria imagem: o sonho que vira realidade retorna ao arquivo e modifica o passado. Ao olhar as primeiras fotografias, vejo nelas não a inocência do início, mas o prenúncio do caminho que viríamos a percorrer.





Este ensaio não é apenas sobre Alyssa. Ele é sobre a construção de uma narrativa a dois sobre a impossibilidade de separar vida e obra quando o objeto é também sujeito, quando o amor produz linguagem. A câmera, aqui, não descreve: ela participa. Não há modelo e autor, há dois destinos em movimento, atravessados por luz, estrada, fome, cansaço, desejo, curiosidade e escolha.
Fotografar alguém por tantos anos é aprender que o tempo também escreve imagens. Se existe coerência visual neste projeto, ela vem menos da técnica e mais da relação. Cada fotografia é uma tentativa de guardar algo que não se guarda: a sensação de partilha. O retrato, nesse caso, deixa de ser descrição de um rosto e torna-se um território de fé, a confiança de que duas existências podem se alimentar mutuamente.
Alyssa não é apenas a protagonista destas imagens, é a razão delas existirem. Meu trabalho encontra nela sua matéria-prima e seu destino. Se a fotografia tem algum poder, é o de permitir que uma vida seja vista com atenção e, nesse caso, a atenção que dedico é a mesma que me constitui.

Sobre o autor:
ale Ruaro é fotógrafo com ênfase em retratos há mais de 30 anos. Com onze fotolivros publicados e obras em coleções como a Bibliothèque Nationale de France, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) e o Museu da Fotografia de Fortaleza, sua produção artística transita entre o documental e o poético, explorando subculturas, erotismo e zonas de exclusão.

