Uma mulher de cabelos pretos e soltos olha fixamente para frente. O olhar hipnótico convoca o observador. Seu rosto não acompanha o movimento do corpo, parcialmente virado para o lado e desnudo. Sobre a cabeça, uma coroa de pentes finos se eleva imponente. A raiz aparentemente lisa é seguida por fios volumosos e sem definição. Dos cachos que ali estavam, restam apenas em algumas pontas de cabelo, fazendo menção a uma forma temporariamente inexistente. Ao fundo, o tecido cinza e brilhante destaca o autorretrato da fotógrafa Claudia Prechedes, parte da série Pixaim – modo pejorativo de chamar os cabelos crespos no Brasil. Neste projeto artístico-documental, Claudia investiga as marcas sociais e culturais sobre cabelos crespos e transição capilar. A artista parte de memórias da infância como suporte de violências naturalizadas pela sociedade, em diálogo com histórias de outras mulheres negras.


Em outra imagem, a artista aparece deitada sobre rolos de palha de aço. O imaginário racista, porém, associa a peça abrasiva, utilizada para limpeza, à textura de cabelos crespos. Prechedes gera tensão material ao trançar em seus cabelos dois tufos da peça metálica, o que causa estranhamento, desnuda a perversidade da metáfora racista e a torna insuportável ao olhar. Como método, revisita contextos que remetem a violência racial associada a cabelos crespos e constrói imagens onde performa o trauma como estratégia para desfazê-lo.
Assim, em outras imagens da série a lâmina pontiaguda de grandes facas contrasta ora com a fragilidade do cetim amarelo, ora com a delicada pele de Claudia. Noutra fotografia, o punho cerrado da artista esmaga pimentas de onde escorre um líquido vermelho vivo; por fim, o dedo indicador toca a ponta de uma faca. São imagens que tencionam o frágil e o hostil em convívio terrível.


A nudez nos autorretratos amplia noções de intimidade e vulnerabilidade, uma vez que expôr e difundir o próprio corpo diante de uma câmera exige autoconsciência e liberdade raras, desafiadoras e assombrosas. Um retrato de costas, com uma toalha branca amarrada para trás, remete ao desejo implantado no imaginário de meninas negras como Claudia foi: ter o cabelo comprido – preferencialmente liso, controlável, previsível.



Os cabelos crespos são um assunto histórico e importante aos movimentos de luta, consciência e valorização de povos negros em diversos países do mundo, especialmente aqueles marcados pela diáspora e resistência anticolonial. Na imprensa negra brasileira – plataformas de difusão da articulação, organização e pensamento das comunidades negras do país –, o tema aparece de diversas formas, ora em propagandas que incentivam o alisamento capilar, ora em matérias que valorizam os cabelos naturais. Uma propaganda de Henê Alemão, na primeira edição do jornal Niger, a “publicação a serviço da coletividade negra” (Ano I, 1960) apresenta a seguinte chamada: “o sucesso de sua vida vem da beleza de seu cabêlo! [sic]” (Idem). E segue: “super Henê Alemão alisa e tinge magnificamente o cabelo crêspo [sic], por mais rebelde que seja, sem quebrar” (Idem). Crescer alisando os cabelos foi, durante décadas, o sentido estético comum à vida de mulheres negras no Brasil, assim como viveu a artista. O registro histórico de propagandas como esta em um veículo da imprensa negra, evidencia como o tema condutor da pesquisa de Claudia é um trauma coletivo, a ferida de um grupo social.



Onze anos depois, o país viria a conhecer o álbum do cantor e compositor Jorge Ben Jor, intitulado “Negro é lindo”, de 1971, uma ode às identidades negras em diálogo com os movimentos Black Power e Black is Beautiful nos Estados Unidos da década anterior. O álbum foi precursor do Movimento Black Rio, que marcou a década com a mistura de ritmos estrangeiros como funk, jazz e soul, somados aos nacionais samba e forró, e à produção intelectual, luta política e fortalecimento das culturas negras. Mais recentemente, movimentos como a Marcha do Orgulho Crespo, iniciada em 2015, assim como os tutoriais de cuidados para cabelos crespos, são uma continuidade com o passado de construção da autoestima negra. Desta forma, trata-se de um incômodo, ao mesmo tempo particular e coletivo, aquele que mobiliza a artista a construir um trabalho extenso e incansável sobre transição capilar, resistência, identidade e estética negras.



A atmosfera densa das fotografias se dá pelo tensionamento entre a composição de objetos discursivos, as cores em tons frios e baixo contraste, a expressão firme da artista e seus gestos eloquentes. O semblante de Claudia reacende a divergência entre os historiadores J. J. Winckelmann e Aby Warburg: de um lado, a nobre simplicidade e a serena grandeza; de outro, a expressão visceral das emoções que atravessam os tempos da humanidade.¹ Essas características somadas ao pathos fixado à forma-retrato ao longo da história da arte, constituem a carga emotiva das fotografias, imprimindo-as no conjunto fantasmagórico de imagens sobreviventes (Nachleben) em simbiose com a memória. Observar o trabalho de Claudia Prechedes junto ao panorama da história permite compreender a sua obra como uma investigação simbólica e política da representação de mulheres negras no Ocidente. Assim, contrapõe imaginários cristalizados e contribui para a mudança de paradigmas estéticos, narrativos e visuais contemporâneos.
¹ A divergência aqui citada refere-se à tensão entre o ideal clássico da “nobre simplicidade e serena grandeza” (defendido por Johann Joachim Winckelmann como norma da arte grega) e o conceito de Pathosformel de Aby Warburg, que identifica na história da arte a sobrevivência (Nachleben) de formas expressivas viscerais e arcaicas, capazes de transmitir emoções extremas através dos séculos. No trabalho de Prechedes, a imobilidade aparente da artista é frequentemente subvertida por essa carga dramática, que desloca o olhar do contemplativo para o afetado.
Sobre a fotógrafa:
Claudia Prechedes é artista visual e fotógrafa brasileira cuja prática investiga o corpo e a identidade a partir de perspectivas feministas e decoloniais. Aborda a negritude e a vivência periférica, confrontando padrões estéticos hegemônicos e narrativas históricas dominantes.
Sobre a autora:
Maria Luiza Meneses é curadora, bacharel em História da Arte (UNIFESP) e especialista em Gestão Cultural (CPF Sesc SP). Atualmente é curadora no Centro Cultural São Paulo – CCSP. Escreve sobre acervos, arte contemporânea e fotografia, arte afro-brasileira, cultura popular e política.

