Luana Fischer

Huellas
12 de julho de 2026
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Uma caminhada interrompida, um corpo que atravessa a fotografia. Esse corpo monumental, central, parece recusar a câmera ou… O que essa imagem diz? O que pode um retrato?

Há algo de virtuoso nessa fotografia, capaz de capturar e devolver nossa atenção ao mesmo tempo. Pensei muitas vezes em como dialogar com essa composição, tentando compreender os modos de sua construção. Havia algumas pistas para arriscar: um passo suspenso no meio da caminhada; uma luz difusa e quente que invade o espaço ermo e toca o corpo, acentuando o lilás do tailleur, o dourado opaco dos cabelos curtos e ralos, formando uma penumbra densa sobre a parede. Mas me pareceu insuficiente olhar a imagem apenas por suas frestas formais.

Pensei então na importância histórica do retrato, embora essa fotografia desestabilize minhas convicções sobre esse gênero tão imponente de representação. O rosto oculto do retrato nem sempre é, à primeira vista, uma honra. Ainda assim, um retrato pode ser também um exercício de presença, de si e de seu autor.

Por isso, entendi que seria melhor voltar ao princípio, pensar a autora dentro da construção da imagem e me perguntar: por que alguém se deixaria fotografar de costas? O que esse lugar e sua arquitetura tentam imprimir na minha percepção sobre essa personagem? Resolvi então tentar uma entrevista — ou algo que o valha — para colocar em jogo algumas hipóteses para essa escrita. Luana topou, e isso mudou profundamente a minha compreensão sobre o ensaio.

Luana Fischer iniciou sua trajetória como fotógrafa na década de 1990, trabalhando como fotojornalista no Grupo Folha. Passou pela Folha da Manhã, pela Folha da Tarde, posteriormente incorporada à Folha de São Paulo, e pelo conhecido Notícias Populares. Este último, o mesmo citado em Homem na Estrada (1993), do grupo Racionais MC ‘s, permitiu que Fischer vivenciasse de maneira intensa as dinâmicas sociais e as barreiras da cidade.

Próximo ao edifício da Folha de São Paulo, na Rua Ana Cintra, seu trajeto cotidiano foi atravessado pela ocupação do MTST — Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto —, experiência decisiva para sua formação. Pela convivência, Fischer percebeu a força das lideranças femininas e a maneira como as famílias ali constituídas afirmavam seus vínculos afetivos e comunitários.

Desde cedo, uma pergunta atravessa sua prática:

“Por que e para que eu tiro fotos?”

De início, ainda no jornalismo, predominava a ideia de devolução pela visibilidade pública da imagem. Com o passar do tempo, essa certeza se dissolveu, e a fotografia passou a operar também como instrumento de reconstrução de identidades.

Fischer retornava seguidamente à ocupação da Rua Ana Cintra, na capital paulista, presenteando os retratados com fotos impressas, gesto que reforçava a natureza relacional e dependente do encontro em sua prática. Posteriormente, expandiu sua atuação para a fotografia comercial e de moda, conciliando exigências técnicas com suas inquietações sobre representação e presença.

Em 2024, na residência Collegium em Arévalo, Espanha, Fischer aprofundou seu interesse pelo retrato de mulheres com mais de 60 anos, observadas em bingos locais. Sua pesquisa, tanto na residência quanto em seu doutorado, foca na representação de grupos historicamente marginalizados, como mulheres e pessoas com diversidade mental. Foi em Ávila que encontrou dados e bibliografia confirmando as mulheres do bingo entre as menos representadas em sua própria região.

Em seu doutorado, explora as relações entre retrato, documentação e ética, baseando-se em autores como Allan Sekula, Georges Didi-Huberman e John Tagg. Fischer discute a dicotomia entre o retrato honorífico e o retrato repressivo proposta por Sekula. Enquanto determinados sujeitos foram fotografados para celebração e permanência, outros foram enquadrados para vigilância, classificação e controle: pacientes psiquiátricos, pessoas racializadas, pessoas com deficiência, trabalhadores pobres, indivíduos criminalizados, entre outros. Em muitos desses casos, os retratados não possuíam qualquer agência sobre suas próprias imagens.

O lugar, palavra e rastro

A escolha do local da residência não é acidental: trata-se de um antigo colégio jesuíta do século XVI, erguido para a formação masculina e marcado por séculos de exclusão feminina. Mais do que cenário, o espaço atua como elemento ativo na imagem e na relação com a personagem. Nas fotografias de Fischer, essa arquitetura é fundamental na construção dos vínculos e na reconstituição simbólica dos sujeitos retratados. 

Fischer discute o título do ensaio, huella (pegadas), articulando rastros espaciais com a semiótica da fotografia como índice e vestígio luminoso. Contudo, resiste à leitura mecânica da imagem, insistindo na experiência compartilhada. Essa perspectiva remete às reflexões de Jeanne Marie Gagnebin em “Lembrar escrever esquecer”: o rastro mantém a “presença do ausente e a ausência da presença”, sendo menos uma permanência plena do que o resto de uma passagem, sempre ameaçado pelo desaparecimento.

A história do retrato sempre esteve ligada à ideia de permanência e fixidez. Retratar alguém significava inscrevê-lo no tempo, produzir memória e conferir presença pública. Mas a fotografia herdou também as violências desse sistema, como identifica Allan Sekula na dicotomia entre retrato honorífico e repressivo.  em “O corpo e o arquivo”, existe uma divisão histórica entre o retrato honorífico e o retrato repressivo. Frente a isso, o ensaio de Fischer opera como um gesto de resistência, uma vez que suas imagens não buscam a captura integral do outro, mas interessam-se pelo que escapa. 

Portanto, a dúvida “Por que alguém se deixaria fotografar de costas?” revela a agência de Concha, a pessoa retratada. Sua monumentalidade não nasce da imposição da câmera, mas de uma escolha de permanência parcialmente acessível, em diálogo. Concha escolhe parar diante da luz secular da antiga escola e Fischer, por sua vez, sustenta esse gesto com seu olhar experimentado. 

Talvez seja justamente aí que a fotografia cumpra seu intento vital: celebrar a memória de Concha e a lealdade de Fischer em criar rastros indeléveis.


Sobre a fotógrafa:
Luana Fischer é fotógrafa e artista visual, nascida no Brasil e residente em Madrid há mais de 20 anos. Seus projetos fotográficos se articulam principalmente em torno dos ciclos da natureza, da paisagem e do corpo feminino.

Sobre a autora:
Horrana de Kássia Santoz é curadora junto à Diretoria Artística do Instituto Moreira Salles (IMS) e educadora formada em Artes Visuais (UFES). É especialista em Gestão Cultural (CPF Sesc SP) e possui MBA em Gestão de Museus e Inovação (Expomus).

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